quinta-feira, julho 28, 2016

Entenda o Parkinson, doença que pode causar diversos sintomas além dos conhecidos tremores

Causas do problema ainda não são totalmente conhecidas pela medicina

Por: Eduardo Rosa
24/07/2016 - 06h16min | Atualizada em 24/07/2016 - 06h16min


Norimar foi diagnosticada há 18 anos e preside associação que ajuda pessoas com a doençaFoto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS
Doença degenerativa que costuma se instalar de forma lenta — sobretudo em idosos —, o Parkinson conta com um leque de sintomas que vai além dos tremores nas mãos.
A enfermidade tem incidência em aproximadamente 3% dos brasileiros com mais de 65 anos e apresenta consequências motoras e não motoras. O primeiro tipo, explica o médico Carlos Rieder, está ligado às áreas cerebrais envolvidas principalmente com a dopamina, neurotransmissor que ajuda na realização de movimentos.
— A diminuição da dopamina leva ao aparecimento dos sintomas. Os clássicos são lentidão dos movimentos, rigidez dos músculos e tremor. Mas as pessoas não vão apresentar, necessariamente, tremor ou rigidez. Boa parte não tem e nunca terá — afirma Rieder, que integra o Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento e é professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
O médico detalha que a doença normalmente afeta primeiro um lado do corpo e, depois, passa a ser bilateral. O tremor do Parkinson se difere de outros tipos — o principal deles é o chamado tremor essencial.
— Ao contrário do Parkinson, o tremor essencial tem relação com a história familiar, tende a melhorar com a ingestão de bebida alcoólica, ocorre de maneira quase igual nas duas mãos e se dá quando a pessoa vai fazer alguma ação — compara a neurologista Sheila Trentin, do Serviço de Neurologia do Hospital São Lucas da PUCRS e coordenadora dos ambulatórios de distúrbio do movimento da instituição.
O paciente com Parkinson, salienta Sheila, está propenso a outras complicações, como o distúrbio comportamental do sono REM (em que a pessoa pode gritar e espernear enquanto dorme), insônia, depressão, ansiedade, constipação, além de alterações de olfato e memória.
— A doença se manifesta de maneiras diferentes. Então, é importante a pessoa não se comparar a outras. É como se houvesse vários tipos de Parkinson. Em alguns, por exemplo, o tremor é o principal sintoma, enquanto em outros é a perda de equilíbrio — explica a médica.
Os primeiros sintomas costumam aparecer após os 65 anos. Entretanto, há uma parcela de aproximadamente 10% dos casos diagnosticada antes dos 45 anos. Essas pessoas terão a doença por mais tempo, mas possivelmente com um avanço mais lento.
Causas ainda são desconhecidas
O que faz proteínas anômalas se acumularem no cérebro, dando origem ao Parkinson, ainda não foi esclarecido pela ciência. Sabe-se, no entanto, que apenas uma pequena parcela tem relação com questões genéticas.
— As causas são desconhecidas na maioria dos casos. Podem ser aspectos ambientais, como a exposição a agrotóxicos e metais pesados.
A prevalência da doença vem aumentando com a industrialização, mas o principal fator do crescimento é que as pessoas estão vivendo mais — afirma o neurologista Carlos Rieder.
Como não há cura, trabalha-se o controle dos sintomas: existem medicamentos que repõem a dopamina e amenizam as consequências motoras. Pesquisadores procuram desenvolver drogas que impeçam o acúmulo das proteínas, atingindo a origem da doença.
— O tratamento não é feito exclusivamente com remédios. Uma parte muito importante é a atividade física regular, que melhora o equilíbrio. Outra é a atividade mental, em que o paciente deve se dedicar a aprender coisas novas, já que há o risco um pouco aumentado de alterações de memória — frisa a neurologista Sheila Trentin.
A especialista ainda acrescenta que, no cenário ideal, o tratamento deve ser feito de forma multidisciplinar, com profissionais de fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia e nutrição, além da medicina:
— Quanto mais multidisciplinar for a equipe, melhor o paciente será tratado.
Atividades em grupo e apoio da família
Dos 68 anos de vida de Norimar Castanheiro, 18 são de convívio com o Parkinson. A investigação sobre a origem das fortes dores que sentia nas costas a levou ao diagnóstico, do qual ela duvidou quando ouviu do médico. Precisou ir a outros quatro profissionais para ser convencida.
— De lá para cá, comecei a ficar travada. Não tremo, mas tudo é mais devagar, sinto a postura entortando. Às vezes, não consigo fazer os movimentos que quero e, ao mesmo tempo, tenho movimentos involuntários — relata.
Norimar viu hábitos simples se tornarem difíceis. Ainda que more sozinha, não se arrisca mais a realizar atividades como caminhar no centro de Porto Alegre desacompanhada. Mesmo para deslocamentos curtos, utiliza a bengala.
— A gente cai muito — justifica.
A melhora da qualidade de vida ela encontrou na Associação Parkinson do Rio Grande do Sul (Apars), entidade da qual é presidente. O grupo se reúne para dividir questões relativas à doença e praticar atividades físicas.
Voluntária da Apars, a psicóloga especialista em neuropsicologia Neusa Chardosim avalia que ações como as desenvolvidas pela associação são importantes para enfrentar o preconceito, já que muitas vezes o paciente é visto como incapaz de fazer atividades corriqueiras.
— O primeiro impacto após a descoberta da doença é o pânico. Depois, vem uma sensação de raiva, de negação. Então, a gente trabalha esse processo do diagnóstico até chegar à fase em que a pessoa começa a aceitar. É um trabalho de formiguinha — conta.
Angela Garcia, também diagnosticada com Parkinson há 18 anos, ressalta que o apoio da família é fundamental.
— Ou a família te apoia, ou te derruba — afirma Angela, que foi presidente da Apars entre 2003 e 2014.

terça-feira, março 29, 2016

o diagnóstico de Parkinson

Descrita em 1817 pelo médico inglês James Parkinson é a segunda doença neurológica mais frequente, ficando atrás apenas da famosa doença de Alzheimer. O neurologista Dr. Leandro Teles da capital paulista conta que o número de acometidos pela doença é crescente com o envelhecimento da população. "Ela pode ocorrer em qualquer idade e ambos os sexos, sendo mais frequentemente diagnosticada entre 50 e 70 anos e com ligerira predileção para o sexo masculino (3 homens para cada 2 mulheres)", diz.

Estima-se ainda que cerca de 10% dos casos ocorram em pessoas abaixo dos 40 anos, desmitificando que é uma doença restrita às pessoas na terceira idade.
"Os sintomas são diversos e cada paciente apresenta uma gama peculiar de alterações com intensidade e progressão variáveis. A doença se comporta normalmente como uma afecção crônica e lentamente progressiva, com dificuldades evoluindo ao longo de anos", fala o neurologista acrescentando que "no começo os sintomas são sutis e o diagnóstico mais difícil (principalmente para o médico não especialista), como o tempo as alterações ficam mais evidentes".
Os sintomas, diagnóstico, causas e tratamento são descritos detalhadamente abaixo pelo neurologista Dr. Leandro.
SINTOMAS
Na doença de Parkinson os sintomas motores são os mais exuberantes, diferente do Alzheimer, onde os sintomas intelectuais são muito mais evidentes (como os esquecimentos, por exemplo). No Parkinson, o paciente apresenta tipicamente uma tríade de alterações motoras:
1- Lentidão: perda de velocidade, parecendo estar um pouco em câmera lenta. Isso fica mais visível quando o paciente faz movimentos alterados, como abrir e fechar as mãos de forma rápida.
2- Rigidez muscular: o membro acometido pode apresentar maior resistência à movimentação passiva, parecer mais duro, mais tenso, isso é melhor visto nas articulações, como punho e cotovelo, ou mesmo na movimentação passiva do pescoço. Essa rigidez pode ser intensificada se o paciente fizer movimentos voluntários com o outro lado do corpo durante a pesquisa da rigidez.
3- Tremor: Apesar do tremor ser o sintoma isolado mais característico, mais conhecido pela população e médicos, ele não é presente em todos os casos. Existem formas aonde o paciente não treme (chamado de Parkinson atremulante, cerca de 15%). O tremor (quando presente) geralmente é de um tipo específico, sendo pior no repouso (melhorando com o movimento). É geralmente lento (cerca de 4 a 7 Hz), mais evidente durante a marcha, ou quando o paciente está mais nervoso ou distraído com outras tarefas. Durante o sono ele desaparece. Muitas vezes, o paciente parece estar contando dinheiro ou enrolando pílulas, dado a característica um pouco rotatória do tremor nas mãos. Outras regiões também podem tremer, como os pés, o queixo e até a cabeça. Agora, existem muitas outras causas de tremor na população, sendo o mais frequente o tremor essencial (uma doença genética, benigna, aonde o tremor é pior na ação e geralmente bilateral).
DIAGNÓSTICO
A doença é diagnosticada pela avaliação clínica, baseado na história clínica e nos sinais encontrados durante o exame neurológico. A doença não aparece em exames de sangue ou de imagem, como tomografia ou ressonância magnética. Os exames geralmente são feitos para afastar outras doenças que podem simular o Parkinson, tais como hidrocefalia, múltiplos AVC´s, sangramentos, etc. Muito importante também afastar o Parkinsonismo induzido por medicamentos, que geralmente é mais simétrico, com mais rigidez e parcialmente reversível com a suspensão do medicamento suspeito. As classes de medicamento que podem gerar parkisonismo são: anti-vertigem, remédios para náuseas e medicamentos para psicose e alucinações.
O diagnóstico infelizmente demora muito na nossa realidade médica atual. Os sintomas iniciais podem ser sutis e o diagnóstico pode ser confundido com problemas ortopédicos, reumatológicos ou até psiquiátricos, principalmente se o tremor não for evidente.
CAUSAS
A causa definitiva é ainda desconhecida. Acredita-se, atualmente, que existam fatores genéticos de predisposição associados a eventos ambientais ainda não completamente conhecidos.
O mecanismo da doença é a disfunção progressiva de algumas áreas cerebrais, principalmente uma região chamada substância negra, que fica em uma região bem profunda do cérebro. Os neurônios dessa região produzem dopamina, um neurotransmissor muito importante para o controle do sistema motor. Na doença, ocorre acúmulo de proteínas anormais levando à morte e disfunção desses neurônios. Durante a evolução da doença, outras áreas também são acometidas, justificando os sintomas não motores.
TRATAMENTO
Não existe cura para a doença. Trata-se de um transtorno crônico e lentamente progressivo. A evolução varia muito de caso a caso, existem alguns que evoluem em poucos anos e outros com evolução em décadas. Existem tratamentos, tanto medicamentosos como não medicamentosos, para conter os sintomas, sendo muito efetivos, principalmente nas fases iniciais da doença
Atualmente, temos diversas opções de medicamentos, que podem ser dados de forma isolada ou em associações. Eles aliviam bastante os sintomas, sem alterar diretamente a evolução (progressão) da doença. A maioria é fornecida gratuitamente pelo SUS. Além de medicamentos para o quadro motor, são por vezes necessários medicamentos para os sintomas associados, tais como distúrbio de sono, depressão, dores, etc.
Como tratamento não medicamentoso podem ser indicados: fisioterapia especializada (neurológica), fonoterapia (casos selecionados), terapia ocupacional e psicólogos, sendo a composição da equipe variável caso a caso.
Recentemente, surgiram alguns procedimentos cirúrgicos que podem ser úteis em casos bem selecionados. Um dos mais importantes consiste em implantar um eletrodo e promover estímulos elétricos em regiões específicas do cérebro para aliviar alguns sintomas motores. Esses procedimentos não garantem a cura e nem a retirada dos medicamentos, mas podem ajudar no controle de algumas manifestações nas fases mais tardias e complicadas da doença.