quarta-feira, julho 02, 2014

Doença de Parkinson: avanços e perspectivas

Publicado em Entrevistas
01 de julho de 2014
A doença de Parkinson é uma enfermidade que foi descrita pela primeira vez em 1817, pelo médico inglês James Parkinson. É uma doença neurológica, que afeta os movimentos da pessoa, com causas ainda pouco conhecidas.
Francisco Cardoso - DP
O professor Francisco Cardoso. Foto: arquivo pessoal.
O professor titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Francisco Cardoso (FC), acaba de participar do 18º Congresso Internacional de Doença de Parkinson e Distúrbios do Movimento, mais importante evento científico na área. Também secretário daInternational Parkinson’s Disease and Movement Disorders Society, o professor proferiu palestra durante o evento, que foi realizado em Estocolmo, na Suécia, e discutiu formas de tratamentos e avanços. Em entrevista, Francisco Cardoso explica melhor a enfermidade e aborda alguns assuntos levantados no congresso:
O que é a Doença de Parkinson (DP)?
FC: A DP é uma doença degenerativa caracterizada pela perda progressiva de neurônios, em especial na parte compacta da substância negra, pequena região encefálica. A perda de neurônios leva à redução de dopamina e outros neurotransmissores (substâncias químicas que ajudam na transmissão de mensagens entre as células nervosas). Na falta dessas substâncias, o controle motor do indivíduo é prejudicado, ocasionando sintomas característicos, como lentidão de movimento. Outros sintomas motores e não motores também podem surgir, como tremores, rigidez, depressão e distúrbios de sono. Mas o principal é a diminuição dos movimentos. Não se sabe a causa da doença de Parkinson, mas se pensa que tenha relação com interação entre genes e fatores ambientais.
Atualmente, escuta-se falar mais sobre casos da doença. Isso se deve a um real aumento da incidência da enfermidade ou a melhoras no diagnóstico?
FC: Há mais diagnósticos atualmente porque se vive mais, e quanto maior a idade, maior o número de casos. Não há dados científicos que confirmem haver mais casos da doença em pessoas jovens, a enfermidade é pouco comum em menores de 30 anos. Há ainda mais facilidade em se fazer o diagnóstico, que é exclusivamente clínico, mas pode ser auxiliado por achados clínicos, exames laboratoriais e de neuroimagem.
Como os medicamentos disponíveis no mercado (levodopa, agonistas dopaminérgicos, dentre outros) agem no organismo?
FC: O tratamento se baseia fundamentalmente em repor dopamina através do fármaco levodopa e os demais medicamentos existentes melhoram a resposta do levodopa. Não temos medicamentos que impeçam a progressão da doença. Por isso, diagnosticar antes ou depois parece não modificar significativamente o modo como a doença progride. No entanto, alguns estudos sugerem que tratamentos mais precoces implicariam em uma melhor evolução a longo prazo.  
As cirurgias são eficazes?
FC: As cirurgias não são curativas e se prestam a amenizar efeitos colaterais das medicações, sendo utilizadas em proporção pequena dos pacientes. Além disso, pacientes com transtorno do humor grave, que estão deprimidos, com comprometimento cognitivo ou que tenham fácil manejo às medicações não são elegíveis. A principal técnica da cirurgia é a estimulação profunda de partes do cérebro, quer seja do subtálamo ou do globo pálido interno.
A estimulação elétrica da coluna dorsal, principal via sensorial da medula espinhal, é um modo de tratamento seguro e eficaz? Por quê?
FC: Testes com estimulação da medula, alguns deles apresentados no 18º Congresso Internacional em Doença de Parkinson e Doenças do Movimento, em Estocolmo, mostraram que não há lugar para esta técnica.
A terapia genética é colocada como alternativa promissora para o tratamento. Os estudos têm mostrado resultados positivos em relação a essa terapia?
FC: Terapias gênicas e com células-tronco – a Escandinávia é um dos grandes centros do mundo nestas técnicas – são inteiramente experimentais, feitas em poucos lugares do mundo e em protocolos de pesquisa. Esse tipo de terapia busca corrigir doenças genéticas, causadas por genes defeituosos, por meio da inserção de uma cópia correta do gene nas células do paciente.
É possível falar que estamos nos aproximando da descoberta de uma cura para a doença? Quais as expectativas da área em relação a essa enfermidade?
FC: Infelizmente, ainda estamos algo longe da descoberta da cura da doença. O que temos são os tratamentos farmacológicos, ao lado de outras técnicas que têm papel expressivo no tratamento, sobretudo a fisioterapia e fonoaudiologia. Os tratamentos atuais são bastante eficazes, de modo que os pacientes com DP têm expectativa de vida praticamente normal. Além disso, muitos estudos em relação à doença estão sendo desenvolvidos. Alguns deles mostram, por exemplo, que ao tomar duas xícaras de café expresso por dia, tem-se redução do risco de ter a doença.

segunda-feira, junho 16, 2014

Parkinson e Alzheimer

Várias recordações, experiência, filhos e outras coisas que o tempo oferece, imagine então acordar um belo dia, aos 94 anos, e não lembrar de grande parte da sua vida, nem mesmo dos seus filhos
DIÁRIO DA MANHÃ
NAYARA REIS
Duas doenças degenerativas do sistema nervoso que acometem normalmente pessoas com idade já avançada, o que não é uma regra geral. O mal de Parkinson causa tremores e dificuldades para andar, se movimentar e coordenar. Normalmente quando um paciente jovem é acometido pela doença, a causa mais provável é por hereditariedade. O Alzheimer tem como principais sintomas a perda da memória e distúrbios de comportamento. As informações são da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
 Atualmente existem tratamentos que, apesar de não curarem o mal de Parkinson, auxiliam na qualidade de vida dos portadores da doença. A SBGG alerta que atuar nos fatores de risco da doença é atualmente a única forma de preveni-las. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), no Brasil, a doença de Parkinson acomete uma média de 100 a 200 pessoas por cada cem mil habitantes, é a segunda patologia degenerativa que mais acomete os indivíduos. No mundo, dados da Organização Mundial da Saúde mostram que cerca de 1% a 2% dos idosos possuem a doença.
No dia 9 de agosto deste ano, acontece em Goiânia o 2º Simpósio de Alzheimer de A a Z. O evento será realizado na sede do Cremego. De acordo com o portal da SBGG, o mal de Alzheimer lidera o ranking de doenças que acometem a população idosa, 6% das 15 milhões de pessoas com mais de 60 anos têm a doença. Estima-se que haja cerca de 1 milhão de pacientes demenciados no Brasil.
Luta contra as doenças
Isabel Machado, 57, sofre com a doença da mãe, a quem ela prefere poupar não citando seu nome. Inicialmente, ela foi acometida por Parkinson e depois pela demência, em seu caso o Alzheimer. Hoje com 88 anos, a mãe de Isabel depende totalmente de outra pessoa, fica acamada todo o dia. “A geriatra foi quem notou a demência, ela é muito inteligente e sabia disfarçar bem quando notava que havíamos percebido algo diferente. Ela iniciou com um andar robotizado, tremor, e ela parecia ausente em alguns momentos”, diz. Isabel explica que, após o início do tratamento medicamentoso, a melhora da mãe foi significativa, o que para ela é uma constatação do diagnóstico correto.
Há cerca de seis anos, a mãe de Isabel tem as duas doenças, ela teve seis filhos, mas atualmente mora com cuidadoras em um apartamento na capital. “Há dois anos, ela deixou de morar conosco, na verdade nós revezávamos, cada dia ela ficava na casa de um dos filhos, mas notamos que isso era uma situação muito difícil e cansativa para ela, então tomamos essa decisão, que não foi nada fácil”, explica. Isabel esclarece que a mãe é acompanhada por três cuidadoras durante o dia, atualmente ela não fala, não anda e vive acamada. Até um tempo atrás ainda era possível tirá-la de casa e até passear, mas hoje, vai no máximo até a sala.
A filha ressalta que a descoberta de ambas as doenças foi de difícil aceitação para toda a família, que de certa forma todos adoeceram com ela. “Até hoje é muito complicado falar disso, eu adoeci, ela está muito frágil. Foi um processo duro e sofrido, mas tivemos que tomar a decisão de deixá-la em um lugar só, onde ela pudesse ficar bem. Todos os dias eu ou outra irmã que mora em Goiânia vamos visitá-la e ver como está. Sei que não é o ideal, mas é o possível. Ela só abre os olhos, não fala, nem reconhece mais ninguém há algum tempo”, ressalta.
Uma doença de tratamento oneroso, é o que diz Isabel, atualmente a mãe não toma mais algumas medicações, no entanto não sai mais de casa, e cada visita do geriatra particular custa R$ 600. “Esses valores não são mais gastos pelas doenças. Em casa temos equipamentos que auxiliam a monitorá-la e facilitam quando as cuidadoras suspeitam de alguma piora de sua saúde. Quando ela sente algo, o geriatra vai até o apartamento para uma consulta”, esclarece Isabel.
O amor 
supera tudo
 A velhice traz consigo várias recordações, experiência e outras coisas que o tempo oferece. Imagine então acordar um belo dia, aos 94 anos, e não lembrar grande parte da sua vida, nem mesmo dos seus filhos. É o que aconteceu com o senhor Gonçalo Gonçalves de Lima, ele tem Alzheimer. Ele é avô de Zuleika Lima, 38. Ela explica que, atualmente, seu pai dedica grande parte do seu tempo a ele, que não reconhece ninguém da família. “Eles moram juntos em Belém-PA. A suspeita da doença iniciou quando meu avô passou a ter lapsos de memória rotineiros. Hoje é preciso trocar fraldas e dar banho nele, mas anda, fala e vive quase normalmente”, explica a neta. Zuleika esclarece que o neurologista pediu alguns exames e detectou-se que se tratava de Alzheimer. “O médico disse que o mais provável é que no caso dele tenha sido causado por hereditariedade, já que outras pessoas da família tiveram a doença”, diz.
Para Zuleika, a melhor parte da sua infância eram as férias, que ela passava sempre na casa do avô, que fazia de tudo para agradar a neta mais velha, no caso ela. “É triste porque hoje ele não reconhece mais ninguém, se você passar por ele vinte vezes, ele te dá a mão e te cumprimenta novamente em todas elas”, explica. O pai de Zuleika se aposentou para cuidar de Gonçalo, mas conseguiu um trabalho em que mora dentro das dependências da empresa. “Meu avô fica com uma funcionária e ele sempre por perto para caso ocorra algo. Apesar dessa doença, fomos ao geriatra com ele há algum tempo e a médica se surpreendeu. Meu avô não tem problemas com hipertensão ou do coração, disse que é mais saudável inclusive que meu pai, que é filho dele”, diz.
O avô de Zuleika ainda é muito ativo, ela conta algumas peripécias de Gonçalo durante uma visita a sua casa: “Ele dizia o tempo todo que queria ir embora, ele pegava a chave do carro e tentava abrir o portão, em um desses dias, descuidamos por alguns minutos e quando fomos procurar, meu avô já estava há três quarteirões da nossa casa e correndo, como se estivesse fugindo, hoje a gente ri da situação, mas no dia não foi nada engraçado”, diz. A neta também fala de um episódio comovente: “estávamos em casa e eu peguei um álbum de fotografia antigo para mostrar a ele, tinha algumas fotos do seu casamento. Quando ele viu, eu perguntei se ele reconhecia a mulher da foto, ele respondeu: ‘Essa aí é a Maria de Macedo, meu amor!’ Da minha avó ele se lembra, ela faleceu quando eu tinha 16 anos”, ressalta.
Delson José da Silva, neurologista do Núcleo de Neurociências do Hospital das Clínicas da UFG e diretor do Iineuro-Instituto Integrado de Neurociências, explica que ambas as doenças são neurodegenerativas, ou seja, ocorre perda progressiva de neurônios. “Na doença de Parkinson (DP) ocorre a morte principalmente de neurônios produtores de dopamina, que é um neurotransmissor responsável pelas habilidades motoras, enquanto na doença de Alzheimer (DA) ocorre perda de neurônios produtores de acetilcoloina, responsável por funções cognitivas (memória, atenção, linguagem)”, esclarece.
O médico ressalta que na DP ocorre lentidão dos movimentos (bradicinisia), tremor de repouso, rigidez dos movimentos e alterações da postura (equilíbrio). Já na DA ocorre perda de memória, linguagem e alterações de comportamento. “Ambas ocorrem devido a múltiplos fatores, tantos constitucionais próprios do indivíduo, genéticos e ambientais como fatores agressivos externos”, diz.
 De acordo com o neurologista não existe uma prevenção específica, no entanto o controle de fatores de risco como hipertensão arterial, diabetes, colesterol, triglicérides etc. e ter vida saudável com práticas regulares de exercícios, lazer, dieta saudável, equilíbrio psicossocial contribuem para menor incidência destas doenças. “Evitar drogas, alcoolismo, uso indiscriminado de medicamentos psicoativos Também. Existem casos hereditários, porém as formas esporádicas são as mais frequentes. Casos na família aumentam o risco para as doenças”, ressalta Delson.

Saiba mais

Mal de Parkinson
O que é
O mal de Parkinson pode afetar um ou ambos os lados do organismo. Além disso, a perda das funções não é a mesma em todos os casos. Inicialmente os sintomas podem acometer o paciente aos poucos de maneira suave e ir se agravando até a descoberta da doença e o início do tratamento.
Sintomas
Diminuição ou desaparecimento de movimentos automáticos (como piscar)
Constipação
Dificuldade de deglutição
Babar
Equilíbrio e caminhar comprometidos
Falta de expressão no rosto (aparência de máscara)
Dores musculares (mialgia)
Dificuldade para começar ou continuar o movimento, como começar a caminhar ou se levantar de uma cadeira
Perda da motricidade fina (a letra pode ficar pequena e difícil de ler, e comer pode se tornar mais difícil)
Movimentos diminuídos
Posição inclinada
Músculos rígidos (frequentemente começando nas pernas)
Tremores que acontecem nos membros em repouso ou ao erguer o braço ou a perna
Tremores que desaparecem durante o movimento
Com o tempo, o tremor pode ser visto na cabeça, nos lábios e nos pés
Pode piorar com o cansaço, excitação ou estresse
Presença de roçamento dos dedos indicador e polegar (como o movimento de contar dinheiro)
Voz para dentro, mais baixa e monótona
Ansiedade, estresse e tensão
Confusão
Demência
Depressão
Desmaios
Alucinações
Perda de memória
Fonte:www.minhavida.com.br
DETALHES
De acordo com informações do portal de notícias do médico Dráuzio Varella, não existe um teste diagnóstico definitivo para o Alzheimer. A doença será realmente diagnosticada na autópsia. Na maior parte dos casos, o diagnóstico é feito por meio do histórico do indivíduo e familiar, além de testes psicológicos que têm como função excluir a probabilidade que se trate de outras doenças mentais. Estima-se que cerca de 10% dos diagnósticos podem estar errados.
Sintomas mal de Alzheimer
Estágio I (forma inicial) – alterações na memória, personalidade e habilidades espaciais e visuais;
Estágio II (forma moderada) – dificuldade para falar, realizar tarefas simples e coordenar movimentos; agitação e insônia;
Estágio III (forma grave) – resistência à execução de tarefas diárias, incontinência urinária e fecal, dificuldade para comer, deficiência motora progressiva;
Estágio IV (terminal) – restrição ao leito, mutismo, dor à deglutição, infecções intercorrentes.